quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Dia 1

Algum lugar da Antártica
Data irrelevante


Olá,

Se alguém está lendo isso, bem, saiba que o nosso mundo acabou.
E aqui eu vou contar como aconteceu.

Só lembro de pedaços. eu morava em uma cidade pequena... há muitos anos. Lembro que o mundo passava por uma crise. Uma, não: várias crises. Religiosa, política, econômica. Nosso país também. Era o ano de 2017, por aí. Tudo o que se lia nos jornais era relacionado a atentados, mortes, crises e eventualmente o futebol, claro. Ah! o futebol... o esporte mais popular do mundo. Era bom de se jogar. e movimentava muito dinheiro. Dinheiro! eu lembro do dinheiro. e pensar que há uns vinte anos ninguém sequer fala em dinheiro! É de enlouquecer. Ele foi esquecido quando a guerra pela sobrevivência começou. Foi terrível.
Lembro vagamente de uma arma, uma arma que aterrorizou o mundo. Eu era jovem à essa época, você vai ter que me perdoar. Não lia muito os jornais, era mais ligado a coisas extremamente supérfulas, como fotos e mídias sociais. Minha geração sofreu bastante com o fim da internet. Mas vocês também não podem me culpar totalmente. Quem, àquela época, poderia acreditar que havia mesmo a tal arma? era uma coisa absurda. 
Deixe-me explicar. Minha geração sempre foi fascinada por contos de zumbis, mortos-vivos e essas coisas. inclusive algumas séries de televisão e filmes do gênero faziam muito sucesso na época. Alguns chegavam mesmo a adorar a ideia de um apocalipse, beirando a loucura. E, infelizmente, neste mesmo período a humanidade não estava muito "amigável", por assim dizer. Principalmente algumas regiões do oriente, decididas a destruir grandes potências europeias e ocidentais. A guerra era inevitável. Mas, em nossa zona de conforto, nem sequer sentíamos perigo algum. Bem, até que alguém inventou a arma mais mortífera de todas.
Vocês já devem ter adivinhado que era um vírus zumbi. Não sabemos qual dos lados o desenvolveu, ou qual o usou.. a questão é que foi um ato de loucura. Era uma praga infindável, que se espalhava pelo ar. Um gás que matava por asfixia em instantes, depois "religava" o cérebro, reprogramando-o para matar quem ainda estivesse vivo. Não sei bem como funciona, só ouvi boatos. Dizem que várias regiões dos países em guerra foram bombardeadas com esse gás. Milhões morreram. Não eram os típicos zumbis lerdos e dementes que imaginávamos, pelo contrário. Tinham uma velocidade impressionante, mesmo para os que eram mais gordos, (e na minha época eram muitos, acredite). E matavam não só a dentadas, - pois este era, para eles, o modo mais prático de matar - mas também usavam socos, cabeçadas, o que quer que fosse. Morte era sua missão, e só.
O problema era que, como estavam mortos, e surgiram milhares de uma vez só, em diferentes partes do mundo, não houve como detê-los. Logo o planeta era um caos total. 
E eles finalmente chegaram ao Brasil.

Brasil
Novembro de 2017

A partir daqui lembro de quase tudo. Afinal, foi a maior transformação na minha vida e nas vidas de toda a população mundial. O "Dia do início do fim" ficou assim popularmente conhecido.

Lembro que tentamos sair da cidade, eu e minha família. Mas você já deve ter imaginado que não conseguimos. Por todos os lados haviam carros, motos, pessoas gritando que o fim havia chegado, religiosos orando, saques, roubos, assassinatos, cachorros latindo, um pandemônio. Os únicos que aparentemente não estavam no clima de fim do mundo eram os bêbados, ainda dormindo tranquilos em suas calçadas. A todo instante um alarme de "zumbi! zumbi!" nos alertava, mas quase sempre eram falsos. Contudo, não demorariam a se tornar verdadeiros; Os jornais noticiavam o avanço dos zumbis pelo país, e logo eles realmente chegariam à nossa pacata cidade.
O gás foi uma coisa impressionante mesmo, devo admitir. Os mortos que retornavam, logo que matavam alguém, baforejavam na boca do falecido, uma espécie de boca-a-boca macabro que literamlente trazia a pessoa dos mortos em minutos, como um deles. Ao que parece, os mortos-vivos eram capazes de produzir em seu próprio corpo uma réplica do gás mortífero, que criava mais zumbis. Horrível de se ver. Isto deixava-os com mais quantidade a cada instante, ao mesmo tempo em que nós éramos dizimados.
Minha família resolveu ficar em casa mesmo, pois parecíamos estar mais seguros lá do que no meio da estrada congestionada. Preparamo-nos o melhor que pudemos, reservamos comida saqueando os mercados, trancamos e bloqueamos as portas, estocamos o máximo de água possível. Meu pai arranjou uma arma não sei de onde. Ia ser bem útil, em último caso.
Uns dois dias depois eles chegaram.
Era incrível como eram silenciosos; eu sinceramente esperava rugidos, baba, sons cruciantes, coisas assim. Mas o único som que ouvíamos eram as pessoas correndo e gritando, apavoradas, e depois o silêncio da morte. A gritaria durou umas duas horas, tempo em que ficamos encolhidos no centro da sala, chorando e rezando baixinho. Depois, só ouvíamos passos pesados do lado de fora. Olhando pelas frestas, meu pai avisava que eram muitos, e que lá fora não havia provavelmente mais ninguém vivo. Eu tremia.
Nosso erro, como sempre, foi acreditar muito nas baboseiras que a televisão inventava. Os zumbis reais eram fortes e rápidos, e também não eram de todo burros. Logo alguns perceberam que nossa casa era um lugar fechado; farejavam em volta, procurando maneira de entrar. Não conseguiam, e perdiam o interesse. Contudo, toda vez que um batia em uma porta ou janela, ficávamos aterrorizados. Assim foi durante uma semana inteira.
Infelizmente, um dia minha irmã derrubou uma panela quando um deles tentou arrombar a porta. Ela estava distraída, e fez muito barulho, o que parece ter dado a ele a certeza de que havia alguém na casa. Ele bateu enfurecido uma, duas, três vezes. O barulho provavelmente chamou a atenção de outros, porque em instantes vários batiam na porta, certos de que encontrariam alguém para matar. Minha irmã gritou, piorando a situação. Meu pai veio correndo, acalmou-a e mandou que fôssemos todos para um quarto. Obedecemos, e eu, minha mãe e minha irmã ficamos no quatro com a porta mais resistente. Meu pai foi buscar a arma, mas não voltou; ouvimos um estrondo na porta de fora, e soubemos que eles haviam entrado. ouvimos tiros, e um grito agonizante de papai. Choramos, morrendo de medo. Mamãe tremia. logo eles chegariam até nós.
Eu estava tão desnorteado que nem percebi que minha mãe tinha colocado uma arma em minhas mãos. Era uma pistola pequena, mas, aos dezessete anos, com meus braços magros, achei ela enorme. Mamãe falou algumas coisas, as quais só entendi "irmã", "proteger" e "vá". Ela nos deu beijos e abraços molhados, e nos empurrou a sair pela janela. Em seguida ela fechou a janela e começou a gritar muito alto o nome do papai, que nos amava, que era feliz, e Deus, Deus, Deus. Estava, obviamente, tentando chamar o máximo de atenção possível para ela mesma, para que pudéssemos escapar. Deu certo; ouvimos quando a porta do quarto foi derrubada e os gritos dela. Correndo e chorando, chegamos ao carro do papai, que estava a postos para uma eventual fuga, com suprimentos e tanque cheio, e partimos. Eu sabia dirigir há pouco tempo, mas o suficiente.
Do lado de fora, encontramos vários zumbis; minha irmã atirava contra eles do banco do passageiro, mas acertava poucos, e os que acertava era em lugares irrelevantes. Eu simplesmente desviei do máximo que pude, e acelerei a esmo.
Assim, perdemos nossos pais, nossa casa e nossa antiga vida.
A partir dali começava nossa luta pela sobrevivência.

Amanhã conto mais a vocês. 

F.F.

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